Calvino, os Puritanos e o Trabalho

Vídeo: Calvino, os Puritanos e o Trabalho (1/2)

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Sumário

O pr. Elienai B. Batista apresenta o trabalho do homem como dependente do trabalho de Deus na Criação, Providência e Redenção. Ele também procura mostrar que antes de ser chamado para uma vocação específica, o homem é chamado a trabalhar. O trabalho de Deus não só possibilita o trabalho do homem, mas também o requer.

Preletor

O pastor Elienai B. Batista serve como ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Reformada em Imbiribeira (Recife – PE). Atualmente ele está trabalhando em um projeto missionário ligado ao Centro de Literatura Reformada (CLIRE), onde ministra palestras e cursos, e também na plantação de uma Igreja Reformada em Paulista – PE. O pastor Elienai B. Batista subscreve as Três Formas de Unidade.

Ocasião

Palestra proferida no XIII Simpósio Reformado Os Puritanos (2014).

Transcrição da palestra

Calvino, os Puritanos e o Trabalho [Parte 1]

Em 2001, após ler na internet um texto sobre Os Cinco Pontos do Calvinismo, eu então um pastor pentecostal, entrei em crise. Eu fui buscar em meus livros de teologia algo que mostrasse que aquele ensino estava errado, mas eles não foram capazes de fazê-lo. Um conhecido do bairro, naquela época um batista, encontrou-se comigo em uma escada em um domingo à noite, e ao me ver com uma Bíblia de Genebra que eu só havia comprado por causa de uma promoção e que eu nem sabia ser de linha reformada, tocou na questão das doutrinas da graça. Eu contei-lhe sobre minha crise e ele me emprestou vários livros e revistas Os Puritanos, e várias fitas K7 e de VHS do Simpósios Os Puritanos, e eu me lembro que durante semanas eu passava horas assistindo e estudando. Naquele momento eu não podia imaginar que pela mesma graça, 13 anos depois eu teria o privilégio de estar falando neste mesmo Simpósio. Sem dúvida a graça de Deus é maravilhosa.

Naquela época eu também não imaginava que com aquela descoberta viriam muitas outras. Com o tempo, eu aprendi que ser um cristão reformado não é apenas uma questão de doutrina pura (5 pontos), mas igualmente de vida pura. Pela graça de Deus eu aprendi a razão final porque estamos neste mundo, porque casamos e temos filhos, porque estudamos e trabalhamos, porque anunciamos o evangelho, e realizamos um Simpósio como este – a glória de Deus.

Esta foi uma das grandes redescobertas da Reforma. Por isso, lendo Calvino e também os puritanos você descobrirá que eles buscaram ser fiéis a Deus não só em termos doutrinários, mas que as implicações da doutrina os levaram a buscar a glória de Deus, nos detalhes da vida.

E uma das áreas as quais eles deram atenção foi a questão do trabalho. Por isso, o tema geral que espero desenvolver hoje e amanhã é: Calvino, Os Puritanos e o Trabalho. Hoje espero falar sobre aquilo que podemos considerar o fundamento bíblico da perspectiva de Calvino e dos puritanos em relação ao trabalho, e amanhã veremos a questão da vocação.

Obviamente essas duas palestras, não irão esgotar o assunto, na verdade são apenas uma introdução. Mas creio que nos ajudarão nos passos iniciais de uma compreensão bíblica sobre o trabalho. Esta compreensão se faz necessária, pois sem um entendimento bíblico sobre o trabalho, corremos o risco de abraçar uma perspectiva mundana ou pseudocristã.

O mundo lida com o trabalho a partir de uma perspectiva de vida que não ama e não teme a Deus, e que portanto, não deseja a Sua glória. Neste caso, o trabalho está desvinculado de Deus (Sl 14.1). E falhando ai, no fundamento, o edifício todo fica comprometido. Um exemplo disso, pode ser visto nos escritos de um dos pais do Marxismo, Friedrich Engels. Em sua obra: “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”, ele diz: “… até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.

Por outro lado, temos uma resposta pseudo-cristã, que criou uma dicotomia entre trabalho secular e o sagrado. Ryken em seu livro Santos no Mundo, chama a atenção para o fato que essa divisão já podia ser encontrada no Talmude Judaico.

Aqui está uma parte de uma oração ali encontrada: “…pois eu cedo trabalho, e eles cedo trabalham; eu cedo labuto nas palavras da Torah, e eles cedo labutam nas coisas sem importância. Eu me afadigo, e eles se afadigam; eu me afadigo e lucro com isso, e eles se afadigam sem beneficio. Eu corro, e eles correm; eu corro em direção à vida por vir, e eles correm em direção ao abismo da destruição.”

Esse tipo de mentalidade foi amplamente desenvolvido no Catolicismo Romano Medieval, onde por exemplo a vocação religiosa é considerada superior. Essa divisão também marca o movimento evangélico de nossos dias. Os evangélicos, em geral, reflentem essa perspectiva Cátolico Romana que mantem a divisão entre trabalho secular e sagrado Talvez você já ouviu alguém dizer: “Vou deixar o trabalho para fazer a obra de Deus” (evangelismo, missões, reuniões da igreja e etc).

Assim adotando princípios dessas duas perspectivas (mundana e pseudo-cristã), o trabalho é visto com um mal necessário, voltado para o proveito pessoal e divorciado da glória e Deus.

E infelizmente, essa é também a perspectiva até para muitas pessoas que confessam a fé reformada, contrariando assim o ensino das Escrituras e as raízes de sua fé (Reforma e Puritanismo).

Mas devemos lembrar: Cristo nos redimiu para uma nova vida, cheia de novas perspectivas centradas em Deus e que visam a Sua glória. Nesta nova vida, o processo de santificação envolve deixar os feitos do velho homem para trás e revestir-se dos feitos do novo homem (Ef 4.22-24). Para isso, precisamos ter uma mente moldada pela Palavra de Deus e não pelo mundo (Rm 12.1,2; 1 Pe 1.13,14). Portanto, se queremos glorificar a Deus em todas as coisas (1 Co 10.31), devemos ter uma perspectiva bíblica sobre o trabalho. E neste particular Calvino e os puritanos tem muito a nos ajudar.

E uma das coisas que eles ensinaram, e creio ser o fundamento do ensino bíblico sobre o trabalho é que: O trabalho do homem, depende do Trabalho de Deus. Então vejamos…

O Trabalho de Deus na Criação

Tratando sobre o trabalho na Bíblia talvez vocês imaginem que começariamos em Gn 2.15, onde lemos que Deus colocou o homem no jardim do Éden para que este o cultivasse e guardasse. Ou talvez, poderíamos começar em Gn 1.28, quando lemos que Deus deu ao homem o mandato da criação.

No entanto, em nosso estudo sobre o trabalho, convém que olhemos para antes disso. Ou seja, para Gn 1.1. E o que encontramos aqui: uma afirmação clara da existência de Deus e de que Ele é o Criador de todas as coisas. E no restante do capítulo 1, temos um relato do trabalho de Deus na Criação. Do nada, Ele criou todas as coisas por meio de sua poderosa palavra.

Então temos um padrão estabelecido por Deus, através do modelo da Criação e da bênção para o dia de descanso: seis dias de trabalho e um de descanso.

Por isso, encontramos no Quarto Mandamento (Êx 20.8-11) – “Lembra-te”. O Quarto Mandamento chama nossa atenção para o modelo da Criação, como um padrão para o nosso ciclo de trabalho e descanso.

O Quarto Mandamento, trás à lembrança não só o descanso de Deus, mas também Seu Trabalho. A esse respeito John Murray diz:

A ênfase colocada sobre os seis dias da semana deve ser devidamente apreciada. A ordenança divina não é simplesmente referente ao trabalho; é trabalho com certa constância. Há, na verdade, descanso do trabalho, o descanso de um dia inteiro em cada sete. Provê-se a subsistência do ciclo de descanso, mas há também o ciclo do trabalho. E o ciclo do trabalho é tão irreversível quanto o ciclo do descanso. A lei de Deus não pode ser impunemente violada. Podemos estar perfeitamente certos de que muitos dos nossos males físicos e econômicos procedem da falta de observância do dia semanal de descanso. Mas podemos também estar perfeitamente certos de que muitos dos nossos males econômicos resultam da nossa falha em reconhecer a santidade dos seis dias de trabalho. O trabalho não é apenas um dever; é também uma bênção. E, de igual maneira, seis dias de trabalho são tanto um dever quanto uma bênção.”

Além disso, Palmer Robertson, falando sobre a Aliança da Criação, tratando sobre o aspecto geral, chama a atenção para três ordenanças inerentes nas disposições criacionais de Deus: o Sábado (espiritual), o casamento (social) e o trabalho (cultural). Palmer diz: “O homem como parte da criação tem responsabilidade de obedecer às ordenanças embutidas na estrutura da criação”.

Dessa forma, quando pensamos sobre o trabalho na perspectiva bíblica. Este pensamento deve começar com o Trabalho de Deus na Criação, pois nele encontramos não só o modelo para o nosso trabalho, mas a base do nosso trabalho, isto é, o fato de Deus haver criado todas as coisas para a Sua própria glória, inclusive o homem que deve trabalhar seguindo o modelo estabelecido por Deus nas ordenanças criacionais.

Sem o Trabalho de Deus na Criação, não haveria o nosso trabalho. No entanto o trabalho de Deus não só possibilita nosso trabalho mas exige nosso trabalho. Lendo os primeiros capítulos de Gênesis você verá menções ao trabalho do homem, antes da criação do homem (2.5), na criação do homem (1.26-29), depois da criação do homem e antes da queda (2.15), no juízo de Deus sobre Adão após a queda (3.17,19), e após expulsos do Éden (3.23). O que mostra que o trabalho é a vocação do homem, uma vocação que se fundamenta no trabalho de Deus na Criação. Isso vincula nosso trabalho ao trabalho de Deus e mostra que o trabalho e não só um dever mas uma bênção. Portanto, o fim principal de nosso trabalho é a glória de Deus.

O Trabalho de Deus na Providência

A obra da Criação foi concluída em seis dias, mas sua administração e governo do mundo, ou seja, a obra da Providência, dura para sempre. O trabalho de Deus continua sem cessar. Ele sustenta e governa todas as coisas. A vida de todos, homens e animais, depende do trabalho de Deus (At 17.28; Sl 104.27-30).

E devemos estar cientes que o trabalho de Deus, a Sua Providência, não é simplesmente algo geral, mas também particular. Ou seja, Deus governa e age nas menores coisas (Sl 104.21; Lc 12.6,7).

Podemos ver este ensino sobre a Providência de Deus no Catecismo de Heidelberg, na pergunta e resposta 27:

O que você entende por “Providência de Deus”?

R. A providência de Deus é o Seu onipotente e onipresente poder, por meio do qual, com as Sua mãos, Ele sustenta continuamente océu e a terra etodas as criaturas, governando-os de tal modo que ervas e plantas, chuva e seca, abundância e escassez, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza, todas as coisas na verdade, não nos vêm por acaso mas procedem da Sua mão paternal.

Então, devemos notar que nosso trabalho é completamente dependente do Trabalho de Deus na Providência. Calvino lembrou isso em um sermão em Deuteronômio 8. Ele disse: “Observe-se quando os homens trabalham…”.

Assim, quanto ao trabalho precisamos reconhecer que sem o trabalho de Deus, não haveria o trabalho do homem (Sl 104.23,24, note que o trabalho do homem está na lista das obras de Deus).

Mas será que a ação de Deus em Sua Providência, anula a ação do homem? Não! Na verdade, a ação de Deus é o fundamento da ação do homem. O homem deve reconhecer o trabalho providencial de Deus e agir em consonância à ação de Deus.

Deixar de reconhecer o trabalho de Deus (Sua Providência), e querer trabalhar ignorando Seu Trabalho e sem ajustar-se à Sua ação na Providência, como os ímpios o fazem, torna o trabalho uma vaidade destituída do propósito de glorificar a Deus.

Portanto, ao pensar sobre o trabalho devemos levar em consideração o trabalho de Deus no sustento e governo de todas as coisas (Providência), lembrar que sem este Trabalho de Deus, nosso trabalho não seria possível e que nosso trabalho deve ajustar-se ao Trabalho dEle.

O Trabalho de Deus na Redenção

No entanto, temos um problema. O pecado afastou o homem de Deus. E agora por causa do pecado, o homem não quer agir em consonância com a ação de Deus, o que torna o trabalho humano um empreendimento sem valor aos olhos de Deus.

Portanto, como pode o trabalho do pecador, ajustar-se ao Trabalho de Deus e ser aceito por Ele? A resposta passa pela cruz. Nossas obras só são aceitas por Deus se pela fé estivermos unidos a Cristo. Se estamos em Cristo, tendo sido justificados nele, por graça Deus recebe o nosso trabalho e o “torna uma obra útil e eficaz” da qual Ele se serve no mundo.

Note que o trabalho de todos depende do trabalho de Deus (Providência). Mas se pensamos a respeito do trabalho que é aceito por Deus, o trabalho do qual Ele se serve para glorificar o Seu nome, descobriremos que este é ainda mais dependente dEle. Para que nosso trabalho seja aceito por Deus, dependemos do trabalho dEle na Salvação dos Pecadores, por meio de Seu Filho Jesus Cristo.

Por isso, John Cotton (puritano), escreveu o seguinte:“Um verdadeiro crente… vive na sua vocação pela fé. Não apenas minha vida espiritual mas até minha vida civil neste mundo, e toda a vida que vivo, é pela fé no Filho de Deus: ele não isenta qualquer parte da vida da agência de sua fé”.

Para que nosso trabalho seja aceito por Deus, se ajuste à Sua ação na Providência e resulte na Sua glória, dependo do trabalho de Deus na Redenção, por isso para que nosso trabalho seja aceito por Deus e se ajuste ao trabalho dEle, é preciso que aquele que trabalha confie em Cristo.

Então, a noção bíblica do trabalho, envolve olhar para o trabalho de Deus na Criação, na Providência e na Redenção. Se desvincularmos nosso trabalho, do trabalho de Deus, estamos agindo não como os santos em Cristo, mas como os ímpios do mundo.

A nova vida que recebemos em Cristo, nos leva a olhar para o trabalho de Deus (Criação, Providência e Redenção), e ao fazê-lo descobrimos que o nosso trabalho depende completamente do trabalho de Deus. O qual possibilita e exige o nosso trabalho.

André Bieler, falando sobre o Pensamento Econômico e Social de Calvino, diz que com isso em mente devemos olhar para o dia de descanso, e observar que Deus em Sua infinita misericórdia, nos deu este dia, não para que o utilizemos como melhor nos convém; mas, para que cessando nosso trabalho, possamos com mais diligência meditar no Seu trabalho na Criação, na Providência e na Redenção, a fim de ajustar nossas ações ao trabalho de Deus, sem o qual, nosso trabalho se torna vão, ineficaz e pecaminoso aos olhos dEle.

É-nos sempre necessário lembrar o fim a que mira ele, pois que o Senhor não simplesmente ordenou aos homens descansarem cada sétimo dia, como se tivesse Ele prazer em nosso ócio, mas em que, livres de todos os outros misteres, apliquemos mais francamente nosso espírito a reconhecer o Criador do mundo. Em suma, é um lazer ou descanso sagrado, que remove os homens dos impedimentos do mundo, para entregá-los totalmente a Deus”.

Conclusão

  1. Nosso trabalho se fundamenta e depende do trabalho de Deus;
  2. Vimos o trabalho de Deus na Criação, Providência e Redenção;
  3. Os salvos devem trabalhar adequando-se ao trabalho de Deus e em dependência dEle;
  4. Deus nos concedeu um dia de descanso para que contemplemos Seu Trabalho;
  5. E para que Ele trabalhe em nós a fim de nos ajustarmos ao Seu Trabalho.

 

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