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Vídeo: Calvino, os Puritanos e o Trabalho (2/2)

Neste vídeo

Sumário

O pr. Elienai B. Batista apresenta a perspectiva reformada sobre a vocação, desenvolve o conceito de vocação temporária e permanente e oferece alguns princípios através dos quais podemos descobrir nossa vocação.

Preletor

O pastor Elienai B. Batista serve como ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Reformada em Imbiribeira (Recife – PE). Atualmente ele está trabalhando em um projeto missionário ligado ao Centro de Literatura Reformada (CLIRE), onde ministra palestras e cursos, e também na plantação de uma Igreja Reformada em Paulista – PE. O pastor Elienai B. Batista subscreve as Três Formas de Unidade.

Ocasião

Palestra proferida no XIII Simpósio Reformado Os Puritanos (2014).

Transcrição da palestra

Calvino, os Puritanos e o Trabalho [Parte 2]

Lembro que meu tema geral ontem e hoje é: Calvino, os Puritanos e o Trabalho. Ontem em minha primeira palestra vimos que o fundamento de nosso trabalho está no Trabalho de Deus na Criação, Providência e Redenção. E que portanto, os salvos em Cristo Jesus devem trabalhar em dependência ao Trabalho de Deus, e lutar por ajustar seu trabalho ao Trabalho dEle. Notamos como o dia de descanso, é o dia em que paramos nosso trabalho e nos submetemos ao trabalho de Deus a fim de que Ele trabalhando em nós, nosso trabalho possa ser ajustado ao dEle.

Hoje daremos mais um passo na direção de uma perspectiva bíblica sobre o trabalho. Veremos aquilo que diz respeito à questão da vocação.

Em primeiro lugar quero chamar sua atenção para o fato de que a ideia do trabalho como sendo uma vocação, ou o chamado de Deus para o homem, é uma ideia que vem da Reforma.

Antes disso, no Catolicismo Romano Medieval, como vimos, o que prevalecia era a ideia de que o trabalho sagrado é superior ao assim chamado trabalho secular. Prevalecia a ideia de que só através do trabalho sagrado o homem se une ao Trabalho de Deus.

Portanto, o conceito de vocação (chamado de Deus), era entendido somente em relação à vida religiosa. Um monge era um vocacionado, um carpinteiro não. Porque o trabalho do monge era considerado espiritual, uma obra de Deus, enquanto a carpintaria era um trabalho mundano. Esse tipo de perspectiva, gerou uma atitude negativa em relação ao trabalho. Isso pode ser visto por exemplo em a Cidade de Deus, de Agostinho, onde ele escreve: “… labor, embora útil, é em si mesmo uma punição”.

Foi Lutero, quem começou a ensinar sobre o sacerdócio de todos os crentes, o que trouxe a ideia de que todos podem ver seu trabalho como uma vocação de Deus. Então se hoje falamos do trabalho específico que uma pessoa desenvolve como sendo sua vocação, isso se deve ao que Deus realizou por meio da Reforma.

Quanto a isso, podemos dizer que Lutero abriu o caminho, Calvino o alargou, e que os puritanos o adornaram. A ponto de muitos escritores reconhecerem que essa perspectiva da vocação em relação ao trabalho, tornou-se uma das idéias mais destacadas do calvinismo.

Obviamente isso, traz à tona, a influência da Reforma, especialmente no que tange ao desenvolvimento das nações. Notamos assim que o progresso ocorrido em países de maioria protestante, está de alguma forma, relacionado com a cosmovisão reformada a respeito do trabalho e a este conceito da vocação.

Dito isso, podemos trazer à memória mais uma vez que o trabalho é a vocação do homem, é o chamado de Deus ao homem, para que este atendendo ao Seu mandato da Criação, dependendo de sua Providência, alcançado pela Redenção providenciada por Cristo Jesus, se una ao Trabalho de Deus.

No entanto, nem todos trabalham na mesma coisa. Então temos de falar agora em termos mais específicos, sobre esta questão deste conceito de vocação recuperado na Reforma.

Isto é: Deus chama cada para um trabalho específico, este trabalho específico, para o qual somos chamados de forma particular é a nossa vocação.

Notem que a vocação é um chamado, um chamado de Deus. Quanto a isso, os puritanos diziam que todo cristão tem um chamado. Segui-lo é obedecer a Deus. Assim notamos que trabalhar conforme nossa vocação é responder positivamente ao chamado de Deus.

Foi sobre este chamado que o puritano William Perkins falou em um sermão em 1603, um sermão em 1 Coríntios 7.20 (Um tratado sobre as vocações ou chamados dos homens). Perkins falou da vocação geral e da vocação pessoal. A vocação geral é o chamado de Deus para sermos cristãos. Já a vocação pessoal, refere-se a algum ofício específico. Perkins viu a relação entre as duas vocações. Para ele um cristão deve demonstrar ser um cristão em sua vocação pessoal.

Quanto a essa vocação pessoal, Perkins disse: “Uma vocação ou chamado é um certo tipo de vida ordenado e imposto ao homem por Deus, para o bem comum… Toda pessoa de todo grau, estado, sexo ou condição, sem exceção, deve ter algum chamado pessoal e particular em que caminhar”.

Notem que vocação não é só para trabalho remunerado, mas “um certo tipo de vida”, uma tarefa que lhe é dada por Deus. Desse conceito da vocação como sendo um chamado de Deus, o qual designa uma tarefa ao homem, se depreende que o homem é um mordomo que serve a Deus por meio de seu trabalho. Assim, o trabalho, o cumprimento da vocação é visto como um meio, não um alvo em si mesmo, um meio de glorificar a Deus no serviço ao próximo. O que deve ter como consequência o contentamento. Assim podemos entender Efésios 6.5-9; Colossenses 3.22 – 4.1.

Notamos assim, que a vocação tem como fundamento a Soberania de Deus, o direito Dele de nos dizer como viver.

Por isso, Calvino escreve: “A Escritura usa esta palavra VOCAÇÃO para mostrar que uma forma de viver não pode ser boa nem aprovada, a não ser que Deus seja o seu autor. E esta palavra VOCAÇÃO também quer dizer “chamado”; e este “chamado implica em que Deus faça sinal com o dedo e diga a cada um: quero que vivas assim ou assim.”

Então fica claro que quando estamos falando da escolha de uma profissão, essa escolha deve ser feita de acordo com nossa vocação, de acordo com o chamado de Deus para um trabalho específico. A escolha da profissão é na verdade uma escolha determinada por Deus

Portanto, a menos que o cumpramos, não glorificaremos a Deus em nosso trabalho. Na verdade, aqueles que exercem qualquer função, e não levam em conta a vontade de Deus, estão desajustados com o trabalho de Deus e portanto, tornam seu trabalho uma vaidade, algo inútil.

À luz disso em vez de nos perguntarmos: “Em que especificamente devo trabalhar?”, deveríamos nos perguntar: Qual é o trabalho específico que Deus me dá a fazer neste mundo? Mas como podemos obter a resposta? Como podemos saber qual é o chamado específico de Deus para nossas vidas?

Não temos um versículo que nos indicará nossa vocação. No entanto, temos princípios que podem nos ajudar a encontrar respostas a estas questões da vocação.

Primeiro princípio: Deus quer que eu o sirva, quer que meu trabalho se ajuste ao dEle. E um dos aspectos desse ajuste encontramos em Ef 4.28, que nos mostra que nosso trabalho deve ter como objetivo servir ao próximo. Sobre isso Perkins disse: “O verdadeiro objetivo de nossa vida é servir a Deus, em servir ao homem; e, como recompensa desse servir, Deus envia sua bênção sobre os trabalhos, permitindo que eles a recebam por seus labores”.

Portanto, a escolha da profissão deverá ser baseada em função do serviço que devo prestar a Deus em servindo o próximo e não no ganho que se pode obter.

Segundo princípio: a profissão escolhida deve ser algo bom, isto é proveitoso aos outros (Ef 4.28). Sobre isso, podemos ouvir o que Calvino disse em seu sermão sobre Ef 4.26-28: “Mas ainda, São Paulo aqui ajunta uma circunstância, que bem merece ser observada” (citação 1423).

Terceiro princípio: a profissão deve ser digna da vocação de Deus. Quanto a isso, podemos reconhecer como Calvino que “A grande maioria das profissões é digna da vocação a que Deus chama o homem”. Há todavia, trabalhos que não são atividades lícitas (ainda que possam ganhar o caráter de legitimidade pelo governo). Há trabalhos que visam nada mais que a exploração, ou o prazer. Não são um trabalho que traz um benefício real ao próximo. O que é legal juridicamente, não necessariamente legal aos olhos de Deus.

  1. Quanto às profissões que não são compatíveis com a chamada divina, Klaas Runia menciona três classes:
  2. Aquelas que incluem atividades que possam prejudicar o próximo (jogo de azar, certos tipos de divertimento, sistema de pirâmide).
  3. Aquelas que não prestam serviço útil à sociedade (produzir determinados tipos de literatura, prostituição).
  4. Aquelas que apesar de serem boas, não o sejam para aquele crente em particular (trabalhar em uma cafeteria, quando tem uma inclinação para ser viciado em café).

Tendo estes princípios em mente, e tudo aquilo que temos visto até aqui sobre a vocação. Ainda precismos saber como uma pessoa em particular vai saber a vocação de Deus para sua vida? Por exemplo: imaginem um jovem que não tem a mínima ideia sobre qual profissão exercer. O que diríamos a ele?

A primeira coisa, é que ele deve reconhecer que a escolha de uma profissão deve ser feita de acordo com sua vocação. Então Ele deve buscar essa resposta em dependência de Deus (oração).

Mas existem certas pistas da Providência de Deus, as quais podem ajudar a descobrir que profissão escolher. Aqui recebemos mais uma vez a ajuda dos puritanos.

Leland Ryken, resume a metodologia que os puritanos usavam na escolha de uma profissão:

  1. Os dotes e inclinações internos.
  2. Circunstâncias externas que levaram a um curso de vida em vez de outro.
  3. O conselho de pais, guardiões (ou pessoas maduras).
  4. A educação e os dons adquiridos.

Assim notamos, que a escolha da profissão, vai observar os atos da Providência de Deus, por meio dos quais Ele pode estar indicando o seu chamado específico para determinada pessoa.

Quanto a isso devemos ter cuidado. O padrão mundano e o nosso próprio coração, se inclinam para aquelas ocupações que nos tragam mais honra e prosperidade, mesmo que não sejam um serviço ao próximo.

E aqui vale lembrar aos pais que certamente eles exercem uma influência sobre a escolha da profissão. Então é importante que eles mesmo tenha um visão correta sobre o trabalho e os princípios que devem reger a escolha de uma profissão.

Em nossa cultura, geralmente fica excluído o conceito de vocação, pensa-se antes em termos de status social e a questão financeira. Mas os pais devem orientar seus filhos com base em princípios bíblicos: serviço a Deus, serviço ao próximo, vocação digna de Deus, observação do Trabalho da Providência.

Outro ponto muito importante é quem nem sempre alguém estará exercendo a profissão que deseja. Mas uma vez que Deus por Sua Providência está a determinar como devemos viver, então devemos confiar em Sua bondade e contentar-nos com a vocação para a qual Ele nos chama no momento, até que Ele nos abra a porta para possamos nos consagrar ao trabalho que desejamos. Pode ser que Ele nos quer treinar para o trabalho para o qual nos chamou, nos chamando antes, para outro trabalho.

Um exemplo bíblico é José. Deus o chamou para ser governador do Egito. Mas antes disso, pela Providência de Deus, sua vocação foi a de servir seu pai Jacó, depois ser um servo na casa de Potifar, e mais tarde servir na prisão como um prisioneiro, até que foi chamado para governar o Egito.

Como ele agiu diante de cada chamado? Pacientemente e cheio de confiança, ele serviu aos homens, como que servindo ao próprio Deus. Ele aceitou condições mais humildes. Vocação é fazer aquilo para o qual Deus nos chama, tanto de forma final, a vocação mesmo, como de forma temporária, a vocação para um determinado momento de nossa vida.

Outro exemplo é Moisés. Deus o chamou para libertar Seu povo do Egito. Mas antes disso, ele ficou 40 anos no Egito, onde foi instruído em toda ciência do Egito, para depois passar 40 anos cuidando das ovelhas de seu sogro Jetro, o que eram ainda treinamento.

Calvino cita o povo de Israel no Egito: “No Egito foram eles forçados a trabalhos braçais, servis, que podiam sufocar todo o vigor do espírito e, assim, o pobre povo não tinha meios de aspirar a qualquer ciência liberal. Dai temos que concluir que aqueles que simplesmente seguem o que Deus ordena jamais são destituídos de Sua ajuda. E assim que em todas as questões que excedem à nossa capacidade, esta oração em uso nos esteja para encorajar-nos: Senhor, dá meios de fazer o que ordenas e ordena o que queres que se faça.” A parte final é uma citação de Agostinho (Confissões).

André Biéler nos lembra que: “… esta atitude espiritual não implica, de modo algum, em uma participação estática do homem na escolha de sua profissão. Requer simplesmente grande paciência quando esta escolha é modificada ou retarda por circunstâncias que excedem à nossa capacidade”.

Então, se pela providência de Deus alguém não tem condições intelectuais ou físicas, para determinados tipos de trabalho deve, contentar-se com o que Deus em Sua Providência lhe reservou. No entanto, se pela mesma Providência, lhe são concedidos dons e meios, e portas lhe são abertas, tem a obrigação de como um bom mordomo fazer o melhor uso de tais dons e meios para o serviço a Deus, por meio do serviço ao próximo.

Então a atitude inquieta que não aceita as ocupações mais humildes, seja por se imaginar merecedor de coisa melhor (sem contudo estar preparado para isso), seja por entender que sua vocação seja outra, ou por achar o salário muito baixo, e por isso, não quer trabalhar ou faz o trabalho de forma preguiçosa, com murmurações contra a Providência, não é a atitude de um salvo em Cristo Jesus.

Precismos ter uma mudança de perspectiva. E ver nossa vocação, mesmo aquela que nos seja temporária e contrária aos nosso desejo natural, como um meio pelo qual Deus nos chama a glorificar o seu nome participando de Seu Trabalho no mundo.

Assim como Calvino e os puritanos precisamos relacionar nossa perspectiva sobre o trabalho com nossa teologia (reformada-puritana). É o Deus Todo-Poderoso Criador de todas as coisas, o Provedor e Sustentador de todo universo, o Redentor, O Deus Triuno, quem nos chama, e nos une ao Seu trabalho, para que nosso trabalho resulte em Sua glória. Assim sendo, como devemos trabalhar? Como devemos buscar nossa vocação? Como devemos desenvolvê-la?

Certamente não com a perspectiva mesquinha da ascensão social ou do enriquecimento, mas com uma visão mais ampla, que vá além da aparência.

Permitam-me uma ilustração a esse respeito: Um dia, um senhor […] passou por um lugar em que havia uma construção em andamento. Ele perguntou aos trabalhadores: “O que estão fazendo?”. Um disse: “Estou quebrando pedras da pedreira”. Outro respondeu: “Sou responsável por fazer a argamassa que juntará as pedras”. Um terceiro homem, coberto de lama, empurrava um carrinho de mão, e parou apenas um tempo para dizer com prazer e orgulho: “Estou construindo uma catedral”.

Amados irmãos, seja lá qual for sua vocação o que vocês estão fazendo? Mulheres que muitas vezes sentem vergonha de dizerem que são donas de casa, o que vocês estão fazendo? Pastores o que vocês estão fazendo? Estudantes o que vocês estão fazendo? A resposta que vê mais longe é esta: Estou glorificando a Deus.

Assina como Bach )o compositor) assina suas composições com o Soli Deo Gloria. Deve haver em cada trabalho nosso, uma assinatura não com caneta, mas uma assinatura Soli Dei Gloria.

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